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Azucena Villaflor

Após meses buscando seus filhos desaparecidos, sem sucesso, um grupo de mulheres argentinas decidiu reclamar diretamente ao governo.

Era um ato de coragem: o país vivia sob uma das ditaduras mais violentas da América Latina, e qualquer questionamento poderia ser punido com a morte. Estima-se em mais de 40 mil as vítimas do regime militar do país Hermano. Azucena Villaflor, uma telefonista ligada ao movimento sindical, seria uma das mães – e também uma das vítimas.


Como as manifestantes eram senhoras de meia-idade, os soldados em frente ao palácio presidencial reagiram, de início, com menos brutalidade que o normal. Disseram que aglomerações não eram permitidas e que elas deveriam “circular”. E foi o que fizeram: a partir daquele dia (e ainda hoje) elas se reuniram todas às quintas-feiras na Praça de Maio, em frente ao palácio de governo em Buenos Aires, pedindo justiça para seus filhos desaparecidos. Logo, ficaram conhecidas como as Mães da Praça de Maio.


O movimento, pacífico, tornou-se um incômodo constante aos militares. No coração da capital argentina, as mães expunham ao mundo uma realidade que os poderosos preferiam ocultar: os desaparecidos não eram necessariamente guerrilheiros diabólicos que queriam destruir o país, como dizia a propaganda oficial – eram maridos, pais, filhos, e seu sumiço não seria aceito em silêncio.


Conforme as manifestações cresciam, também a violência repressiva ganhava força. Azucena era uma das fundadoras do movimento, que ajudou a iniciar após a prisão do seu filho. Néstor, e da namorada dele. Transformada em alvo, foi sequestrada por um grupo paramilitar ligado à Marinha, em 10 de dezembro de 1977, justamente a data consagrada como o Dia Internacional dos Diretos Humanos.


Aprisionada e torturada, Azucena foi assassinada – acredita-se que tenha sido vítima dos chamados “voos da morte”, em que prisioneiros eram jogados no mar a partir de helicópteros e aviões, aparecendo “afogados” nas praias. Enterrada sem identificação, Azucena se tornou ela própria uma desaparecida política. Seus restos mortais seriam localizados em 2005.


Mesmo com as várias tentativas de intimidação, as mães inspiradas por Azucena e outras pioneiras seguiram lutando por justiça e reparação. Aquelas senhoras enlutadas que, sem armas na mão, tentavam derrubar um regime sanguinário, se tornaram o símbolo mais poderoso contra os generais. Hoje, Azucena Villaflor dá nome a escolas e ruas na Argentina. Jorge Rafael Videla, general que mandava no país quando ela foi morta, morreu na prisão em 2013. Cumpria uma pena perpétua.


Fonte: revista Super Interessante. 70 mulheres que mudaram o mundo.